Em um movimento estratégico para equacionar suas dívidas e se reestruturar, a usina açucareira Furlan, em recuperação judicial desde junho de 2025, obteve aval da Justiça para alienar sua unidade industrial e áreas de cultivo localizadas em Avaré (SP). O negócio, fechado com o grupo Viralcool, está avaliado em R$ 150 milhões.
A transação, formalizada por meio de um mecanismo conhecido como DIP Financing (Debtor-in-Possession Financing), foi homologada pela 1ª Vara Regional Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem no último dia 10 de fevereiro. O modelo permite que empresas em recuperação judicial obtenham financiamento utilizando um ativo como garantia, no caso, a unidade de Avaré.
A estrutura alienada é composta pela usina sucroenergética e pelas fazendas Cantão do Rio Pardo e Cascata. Juntas, as propriedades somam aproximadamente 2,3 mil hectares, dos quais 1,8 mil hectares são áreas produtivas com capacidade estimada para a colheita de 200 mil toneladas de cana-de-açúcar.
Com a concretização da operação, será criada a Unidade Produtiva Isolada (UPI) de Avaré, que poderá ser imediatamente explorada pelo grupo Viralcool mediante o pagamento dos R$ 150 milhões. Além desse montante, o investidor arcará com um valor mensal à Furlan pelo direito de exploração.
Durante o período de uso, a UPI será colocada à venda no mercado em um processo que pode ou não ter o grupo Viralcool como vencedor. A estimativa é que o valor de mercado do local seja quatro vezes superior ao montante do financiamento, chegando à casa dos R$ 600 milhões. Caso o grupo não arremate a propriedade no futuro, ele será incluído na lista de credores extraconcursais (fora da recuperação judicial), com prioridade para reaver o valor investido.
Na decisão que autorizou a operação, o juiz José Guilherme Di Rienzo Marrey estabeleceu regras de transparência e fiscalização. “Deverão, as recuperandas, juntar aos autos a documentação referente ao financiamento imediatamente após a contratação. Além disso, deverão apresentar relatórios mensais padronizados, a fim de facilitar a fiscalização e garantir a rastreabilidade dos recursos”, determinou o magistrado.
Destino dos recursos
A Furlan, representada pelo escritório LCSC Advogados, apresentou o pedido de alienação em janeiro deste ano. De acordo com o processo, os R$ 150 milhões serão utilizados, prioritariamente, para quitar débitos com quatro credores que possuem garantias sobre as áreas que agora compõem a UPI de Avaré. A dívida total com esses credores soma R$ 157,5 milhões, mas eles aceitaram um acordo para receber valores reduzidos, desde que a quitação ocorra até o início de março.
Fazem parte dessa lista:
- Uma usina de Marapoama (SP), com débito de R$ 48,5 milhões;
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Dois fundos de investimentos, com pendências de R$ 85 milhões e R$ 8,5 milhões;
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Uma securitizadora, cuja dívida é de R$ 15,5 milhões.
O saldo remanescente da operação, bem como o montante que for arrecadado com a futura venda da UPI, será direcionado ao pagamento dos demais credores que integram a recuperação judicial e à regularização de débitos fiscais.
A defesa da usina destacou a importância do negócio para a saúde financeira da companhia. “A venda da UPI Avaré permitirá a acomodação não só do passivo concursal em patamares expressivos em comparação com a versão original do plano apresentado, mas também permitirá que parte não menos relevante dos valores arrecadados possa ser direcionada com a finalidade de regularização do passivo e obtenção das certidões negativas de débitos”, ponderou a defesa da usina nos autos.
Situação financeira da Furlan
Segundo o processo de recuperação judicial, a Furlan enfrenta um endividamento total de R$ 550,9 milhões, englobando passivos trabalhistas, garantias rurais, dívidas quirografárias (sem garantia) e empresariais. Deste total, cerca de R$ 219,3 milhões estão sendo negociados ativamente no âmbito da recuperação judicial, com propostas que incluem parcelamento em até 15 vezes e deságios (descontos) que podem chegar a 90% sobre o valor das dívidas.
O plano de recuperação detalhado será submetido à votação dos credores em assembleias gerais agendadas para os próximos dias 4 e 18 de março.
Com informação da Nova Cana



