O resultado de João Gaioto Neto, de 14 anos, nas últimas competições de judô mostra que, no esporte, nem sempre a maior vitória está representada por uma medalha. O jovem atleta de Avaré enfrentou uma fratura no dedão do pé, chorou diante do risco de ficar fora das competições e, mesmo lesionado, decidiu seguir em frente.
A sequência começou no dia 19 de setembro, quando João disputou o Inter-Regional de Judô, em Aguaí. Ainda convivendo com as dores provocadas pela fratura sofrida apenas 11 dias antes, o atleta competiu na categoria Sub-15, até 50 quilos, e terminou a competição em segundo lugar.
O resultado garantiu a classificação para o Campeonato Paulista Aspirante de Judô 2026, realizado no último sábado (26), em Marília.
No estadual, João voltou ao tatame ainda sem estar totalmente recuperado. Foram quatro lutas na categoria Sub-15 até 50 quilos. O atleta venceu duas e perdeu duas, encerrando sua participação na 5ª colocação, entre os 26 atletas que disputaram a competição.
Apesar de não ter subido ao pódio no Paulista, a participação no campeonato estadual ganhou outro significado diante de tudo o que o adolescente precisou enfrentar nos dias anteriores.
A história de João com o judô começou em 2022, quando ele conheceu a modalidade por meio do sensei Sérgio Lex. Segundo a mãe do atleta, Patrícia Prata, o professor teve papel decisivo para despertar no filho a paixão pelo esporte.
Desde então, o judô passou a fazer parte da rotina do adolescente. João treina de segunda a quinta-feira, com dois treinos às quintas, além de participar das competições disputadas pela associação. De acordo com a mãe, o filho mantém uma rotina rigorosa de treinamentos e dificilmente falta às atividades.
Foi justamente durante um treinamento que o sonho de disputar uma das principais competições de sua temporada quase foi interrompido.
Onze dias antes do Inter Regional, João sofreu uma fratura no dedão do pé. Segundo Patrícia, além da dor física, o filho ficou abalado com a possibilidade de não poder competir. “Ele chorou de dor, porém o choro era maior por saber que ali o sonho de ir para o Inter Regional poderia ter acabado”, contou a mãe ao A Voz do Vale.
João recebeu apoio da família e dos professores. A família procurou atendimento médico por duas vezes. Conforme o relato de Patrícia, os médicos disseram que ele poderia tentar competir caso tivesse condições de suportar as lutas, mas alertaram que a recuperação poderia ser mais lenta.
Mesmo diante do cenário, João decidiu tentar.
No dia 19 de setembro, em Aguaí, entrou no tatame ainda com o pé machucado e terminou o Inter Regional na segunda colocação. O resultado garantiu a vaga para o Campeonato Paulista da semana seguinte.
O desafio seguinte seria ainda maior. O pé continuava imobilizado e o atleta precisava lidar com as consequências da lesão enquanto se preparava para enfrentar adversários de todo o Estado.
Mesmo assim, João novamente decidiu competir.
Em Marília, venceu duas das quatro lutas que disputou e terminou o Campeonato Paulista Aspirante na quinta colocação.
Para Patrícia, porém, o resultado estadual não diminui a dimensão do que o filho conseguiu realizar.
Após a competição, João chorou diante da frustração de não ter alcançado o resultado que desejava. Foi então que as palavras de seu sensei ajudaram o adolescente a transformar a decepção em motivação para continuar.
A mensagem foi simples: era hora de recomeçar. “Ele já era vencedor só de estar ali”, relatou Patrícia. Segundo ela, depois das palavras do professor, o choro deu lugar novamente à disposição para treinar. “Um treino perdido é um treino perdido. Então bora recomeçar tudo de novo”, escreveu a mãe.
A preparação e o acompanhamento de João também envolveram os senseis Sérgio Lex, Luiz H. da Cruz e Junior Camargo. Patrícia agradeceu aos profissionais pela dedicação, pelos ensinamentos e pelo apoio dado ao filho durante o período de lesão e nas competições.
Segundo a mãe, Sérgio Lex teve participação especial desde o início da trajetória de João no judô. Além de orientar os treinamentos, o sensei acompanhou o atleta durante o período da lesão e ajudou nos cuidados com o dedo machucado durante os treinos e as competições.
Patrícia também destacou a presença de Luiz H. da Cruz no tatame durante o Campeonato Paulista e agradeceu a Junior Camargo pelos ensinamentos e pela confiança depositada no jovem atleta.
A sequência de competições terminou com um segundo lugar no Inter Regional e uma quinta colocação no Campeonato Paulista. Mais do que os resultados, porém, João encerrou o período tendo enfrentado uma situação que poderia ter tirado seu nome das duas competições.
Em apenas 11 dias, o atleta precisou lidar com uma fratura, dor, incerteza, medo de não competir e a pressão de disputar duas competições importantes.
Para Patrícia, a experiência deixou uma lição que vai além do judô. “Nem sempre é sobre medalha. Às vezes, vencer nossos próprios medos é tão importante quanto a tão sonhada medalha”, escreveu.
Agora, depois de completar o desafio que decidiu enfrentar, João terá pela frente uma nova etapa: a recuperação e a retomada dos treinamentos.
Para a mãe, a história ainda está apenas começando. “Você poderia ter lutado ‘meia boca’, mas você foi gigante, lutou com vontade e principalmente venceu seu principal adversário: a dor”, escreveu Patrícia ao homenagear o filho.
SUPERAÇÃO – A história de João mostra que algumas das maiores vitórias acontecem antes mesmo de uma medalha. Aos 14 anos, ele aprendeu que coragem também é entrar no tatame quando tudo parece dizer para ficar de fora, enfrentar a dor, lidar com a frustração e, ainda assim, escolher continuar.
O segundo lugar conquistado em Aguaí foi o reconhecimento de uma luta que começou antes mesmo de João pisar no tatame. No Paulista, a quinta colocação veio depois de mais quatro lutas disputadas ainda em processo de recuperação.
Agora, é hora de cuidar do corpo, recuperar o pé e voltar aos treinos. Porque no judô, assim como na vida, cada queda também pode ser o começo de um novo recomeço.
E João já mostrou que sabe levantar.









